Enero - Junio 2008
N.76

Os blogs no ensino do jornalismo:
Relatos e reflexões a partir de experiências pedagógicas

Beatriz Ribas / Marcos Palacios (Brasil)

 

A passagem do jornalismo analógico para o digital tem dois tipos de efeitos diretos sobre as metodologias de ensino do Jornalismo nos cursos de Comunicação. Por um lado, inicia-se um processo de introdução de disciplinas voltadas especificamente para o ensino das peculiaridades técnicas e conceituais que caracterizam o exercício das atividades jornalísticas (produção, circulação, consumo, modelo de negócios) nas novas plataformas representadas pelas redes telemáticas. Por outro lado, a crescente importância das redes de computadores e a generalização de acesso à sua utilização nas redações jornalísticas fazem com que a habilidade para trabalhar com recursos disponíveis na Internet torne-se essencial para a prática profissional, em qualquer suporte (impresso, rádio, TV, etc).

 

Um estudo recente (ICOD, 2006), reunindo pesquisadores de vários países (Argentina, Brasil, Cuba, Espanha, França, Portugal, Itália), realizou um amplo levantamento de situação no que diz respeito à reforma dos currículos dos cursos de Comunicação (e Jornalismo em particular) para acomodar a necessidade de uma qualificação profissional afinada com a nova realidade tecnológica aberta pela digitalização da informação.

 

Constatou-se que as alterações do processo ensino-aprendizagem voltadas para a formação dos novos profissionais em Comunicação vem se fazendo de uma maneira pouco sistemática, em um processo de tentativa e erro:

 

(...) a incorporação de conteúdos digitais nos currículos tradicionais de Comunicação decorreu de forma aleatória, sem que as competências exigidas pela sociedade digital tenham sido claramente definidas. Em grande parte dos casos, o digital aparece nos planos curriculares sob a forma de disciplina de final de curso (Jornalismo Digital, Comunicação Multimédia, etc). Porém, a realidade demonstra que já não existem meios de comunicação não digitais: actualmente, os profissionais da comunicação trabalham imersos num ambiente de forte conteúdo tecnológico que influencia toda a rotina produtiva e não apenas o produto final (imprensa, rádio, televisão, etc). Da mesma forma, os conteúdos digitais devem ser distribuídos nos planos de estudo dos cursos de comunicação, em vez de serem relegados para os últimos anos de licenciatura (ICOD, 2006, p.7).

 

Igualmente é merecedor de atenção o fato de que, no que concerne "à introdução de novas práticas pedagógicas nas instituições de formação, há um dado comum a todos os relatórios apresentados pelas universidades que fazem parte da Rede ICOD: a difusão de práticas renovadoras é um processo complexo e desigual, que responde a diferentes causas e condicionantes" (Idem, p. 71). Entre os fatores que influenciam nesta variada configuração das práticas pedagógicas institucionais, podemos mencionar:

 

  • Tradição didática de cada instituição: há realidades universitárias mais permeáveis às transformações pedagógicas e mais abertas à reflexão sobre a didática.
  • Perfil das universidades: existem instituições que promovem uma formação mais adequada às necessidades de mercado (proximidade com o mundo profissional, aquisição de conhecimentos práticos, etc) e outras com uma perspectiva mais acadêmica (investigação, alto conteúdo teórico das disciplinas, etc.).
  • Experiências individuais precedentes: as vivências educativas de professores e alunos variam de universidade para universidade e, muitas vezes, dentro da própria instituição. Alguns docentes propiciam novas práticas enquanto outros se limitam a reproduzir um modelo de ensino unidirecional no qual foram formados. (Idem, p.72)

 

Conquanto se dê de forma desigual e aleatória, é também perceptível que a introdução do uso de tecnologias digitais, inclusive com utilização da Internet e seus variados recursos, está se generalização no interior das grades curriculares dos cursos de Comunicação, não só naquelas disciplinas mais diretamente ligadas ao uso do computador e da web (Comunicação e Tecnologia, Jornalismo Digital, Multimídia, etc), mas permeando de uma forma geral o conjunto das disciplinas, a ponto de levar seu uso a um rápido processo de "naturalização", ou seja, em muitos casos os próprios docentes não têm consciência muita clara do grau de "alfabetização digital" que está sendo requisitada na maioria das disciplinas curriculares, inclusive naquelas que, à primeira vista pouco teriam a ver com capacitações digitais (Redação Jornalística, Teoria da Comunicação, Ética, etc).

 

Em um levantamento de situação realizado na Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 2005, um questionário foi preparado e aplicado aos docentes ministrando disciplinas da grade dos cursos de graduação (Bacharelado) em Jornalismo e Produção Cultural (MACHADO & PALACIOS, 2007). Foram aplicados questionários a todos os docentes de ambas habilitações, cobrindo um total de 33 disciplinas em andamento (obrigatórias e optativas). Além dos questionários, foram realizadas entrevistas qualitativas com o Diretor da Faculdade, Coordenador do Colegiado dos Cursos e Chefe do Departamento.

 

Dentre as várias conclusões do estudo realizado, cumpre destacar que:

 

(...) na quase totalidade das disciplinas (29 em 33) os docentes demandam alfabetização digital básica (uso de editores de texto, uso de Internet para pesquisa e participação em Listas de Discussão etc), como pré-requisito, senão indispensável, pelo menos desejável, para um bom acompanhamento. Isso inclui disciplinas iniciais, pressupondo-se, portanto, que o estudante chegue à Universidade municiado de uma "alfabetização digital básica". Mesmo docentes que, numa primeira abordagem, respondiam "nenhum" à questão de existência de "pré-requisitos digitais indispensáveis ou desejáveis" para a sua disciplina, acabavam por esclarecer, ao responder outras questões, que usar um processador de texto, por exemplo, seria um requisito indispensável ou altamente desejável. O que se deduziu é que já existe uma tal naturalização quanto à questão do uso do computador como ferramenta de trabalho básica para a escrita que os respondentes sequer identificam tal situação como "alfabetização digital prévia" (MACHADO & PALACIOS, 2007, p 64/65).

 

Além, disso, a utilização da web como "ambiente de pesquisa" está generalizada de forma ainda mais extensa, pois mesmo os docentes que respondiam "não" à questão sobre a necessidade uso de computador para o acompanhamento da disciplina, incluíam a Internet como uma das fontes de pesquisa desejável ou essencial.

 

A utilização de blogs como ferramentas de ensino do jornalismo, entre outras disponíveis na Internet, como correio eletrônico, fóruns de discussão, chats, plataformas de e-learning, distribuição de textos on-line, sítios web e wikis, extrapola, portanto, o âmbito mais imediato do "ensino do jornalismo online" e se torna um recurso de utilização muito mais ampla. Seu uso sistemático pode colaborar, como procuraremos demonstrar ao longo deste artigo, para inserir os estudantes neste novo contexto de produção jornalística, propiciando o desenvolvimento das competências digitais requeridas de um profissional da Comunicação a partir do advento das redes telemáticas, independentemente do suporte em que esteja operando (impresso, rádio, televisão, Internet, etc).

 

Neste artigo, apresentamos as experiências do uso dessa ferramenta em disciplinas de Jornalismo em Cursos de comunicação de duas faculdades na cidade de Salvador (Brasil): Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia e Faculdade de Comunicação Social Jorge Amado (FCSJA).

 

Os blogs são tratados como meios de comunicação professor-aluno, ambientes de produção individual temática, plataformas de construção coletiva do conhecimento, instigadores de pesquisa, ferramentas para aperfeiçoamento de estilo, instrumentos de prática do jornalismo opinativo, ambientes dialógicos e espaços de produção jornalística descentralizada.

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