FAMECOS
Revista de mídia, cultura e tecnologia nº32
Faculdade de Comunicação Social. PUCRS
(Porto Alegre, Brasil - Abril 2007)
A
o longo da sua breve historia, a Revista Famecos tem tido alguns
colaboradores de altíssimo nível, entre os quais três grandes amigos:
Edgar Morin, Michel Maffesoli e Jean Baudrillard. Em 6 de março de 2007,
Baudrillard perdeu a batalha contra a doença que vinha acossando-o
impiedosamente. Morreu um dos mais brilhantes intelectuais mundiais da
segunda metade do sáculo XX. Polêmico/ polemista, homem de estilo
primoroso e de fórmulas desconcertantes, Baudrillard, na sua vasta obra,
desnudou com humor os paradoxos da sociedade da mídia. Atacado como
pessimista, apocalíptico ou até mal-humorado, Jean Baudrillard (nascido
em 1929) era, na verdade, urna pessoa afável, carinhosa, generosa e
apaixonada pelo diálogo.
Ele fez da ironia o seu instrumento de trabalho e levou ao paroxismo
essa capacidade de mostrar o avesso das coisas. Dizia-se um "paroxista
indiferente", pois não pretendia escolher entre os campos em disputa e
refutava ao mesmo o moralismo de uns e outros, mas era um sutil defensor
da liberdade e da criação. Sociólogo, filósofo, livre-pensador,
fotógrafo, poeta e viajante incansável, Baudrillard amava o Brasil, a
caipirinha, o sol, a potencia da vida e a efervescência das idéias.
Esteve três vezes em Porto Alegre, onde brilhou no I Seminário
Internacional da Comunicação do Programa de Pós-graduação em Comunicação
da PUCRS. Antes, em 1993, junto com Morin e Maffesoli, encantou os
gaúchos num encontro para quase duas mil pessoas. Baudrillard será
lembrando por nos com a nossa palavra particular: saudade. Ele acharia
isso certamente piegas. Mas que fazer diante de urna perda que dói?
Num dos seus textos mais bonitos e sensíveis, "Deep Blue ou a melancolia
do computador", publicado em Tela total (Porto Alegre, Sulina, 1999, p.
138), Baudrillard escreveu: "O homem soube inventar máquinas que
trabalham, deslocam-se, pensam melhor do que ele, ou em lugar dele.
Nunca inventou urna que pudesse gozar ou sofrer em seu lugar. Nem mesmo
que possa jogar melhor do que ele. Talvez isso explique a profunda
melancolia dos computadores". Com certeza, o homem ainda não inventou
urna máquina capaz de sofrer e de chorar pela morte de um amigo. Muito
menos urna máquina que possa sentir saudades de alguém que já se foi,
mas que continua a disseminar-se. Baudrillard sabia que a superioridade
do homem está na sua imperfeição natural, que felizmente nunca será
vencida pela inteligência artificial.
A Revista Famecos não poderia deixar de fazer urna homenagem a Jean
Baudrillard. Este número é dedicado a ele. Vamos chamá-lo carinhosamente
de "número Jean". Estamos publicando o discurso feito por Michel
Maffesoli junto ao túmulo do seu amigo, do seu parceiro de viagens e
cúmplice de aventuras intelectuais. Obrigado por tudo, Jean